Transumância resiste na Serra da Estrela e procura atrair novos públicos
Em Portugal, a transumância, a deslocação periódica dos rebanhos entre as planícies e as zonas de montanha, mantém-se sobretudo na região da Serra da Estrela, embora tenha perdido dimensão ao longo das últimas décadas. A prática, menos conhecida do que noutros países europeus, continua a acompanhar o ritmo das estações, das pastagens e dos próprios animais.
Joaquim Marvão é um dos pastores que mantém viva esta tradição. Natural de Vila Nova de Tazem, junto à Serra da Estrela, conduz todos os anos o rebanho até às zonas mais altas da montanha, onde os animais permanecem durante cerca de um mês e meio antes de regressarem.
Este ano, foram 53 dias longe das pastagens habituais. Para Joaquim Marvão, o regresso faz parte do ciclo natural do rebanho. “Está na altura de vir embora. Têm de vir para casa. Agora começam a ficar cheias, começam a ficar barrigudas, pesadas”, explica.
O percurso de regresso está longe de ser fácil. Joaquim conduz cerca de 600 ovelhas durante aproximadamente sete horas de caminhada pela serra. Ainda assim, o número é muito inferior ao registado há alguns anos, quando os rebanhos envolvidos na transumância chegavam a ser dez vezes maiores.
A redução acompanha outra dificuldade crescente: a falta de pessoas disponíveis para continuar a actividade. “Hoje não há pessoal, há pouca gente. Isto é em todas as profissões, não é só nesta. Está tudo uma crise”, lamenta o pastor.
Para contrariar o progressivo desaparecimento da pastorícia e preservar esta tradição, quatro autarquias juntaram-se na marca “Terras da Transumância”, que procura associar a actividade pastoril ao turismo sustentável e à valorização do património cultural e natural da Serra da Estrela.
O coordenador do projecto, Joaquim Madrinha, considera que preservar a transumância significa também manter viva a memória das comunidades serranas. “É importante que as pessoas se lembrem de quais são as suas raízes. Quando isto aqui acabar, tudo isto também pode ficar em risco de acabar”, alerta.
Gouveia é um dos municípios que aderiram à iniciativa, há cinco anos. Para o vereador José Nuno Santos, a cooperação entre os diferentes territórios permitiu dar maior visibilidade à região. “O facto de estarmos em rede trouxe-nos muita força de comunicação, que nos permitiu posicionar estes territórios no turismo de natureza e das tradições”, afirma.
Actualmente, a transumância mobiliza apenas cerca de uma centena de pessoas e enfrenta o envelhecimento dos pastores e a falta de renovação geracional. Ao abrir alguns destes percursos a um número limitado de caminhantes, o projecto procura aproximar visitantes de uma actividade que durante séculos marcou a economia e a vida das populações da Serra da Estrela.
Entre o esforço dos pastores, a redução dos rebanhos e a tentativa de transformar a tradição num elemento de valorização do território, a transumância continua a cumprir o seu caminho. Uma prática ancestral que a nossa correspondente Marie-Line Darcy acompanhou este ano até ao regresso dos animais, uma longa jornada pela serra que terminou debaixo de uma forte tempestade.
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Matéria produzida com curadoria editorial assistida por IA, a partir de pauta de www.rfi.fr.